terça-feira, 5 de abril de 2011

Cultura da Cooperacao e da Solidariedade: Caminho para a ECOSSUSTENTABILIDADE!

A CULTURA DA COOPERAÇÃO E DA SOLIDARIEDADE: O DESAFIO SÓCIO-ORGANIZACIONAL DO MOVIMENTO COOPERATIVISMO DA AGRICULTURA FAMILIAR E ECONOMIA SOLIDÁRIA na Bahia e no Nordeste Brasileiro.

A chave para a liderança da Nova Economia é a valorização
social dos trabalhadores do conhecimento e a produção social do conhecimento.


A história da humanidade tem sido a história da busca e da construção da sua socialização. Dizer simplesmente, que o ser humano é um ser social, além de ser um lugar comum, é tomar posição essencialista e a princípio, que nada ajuda no esforço milenar da civilização de tornar o ser humano um ser mais cooperativo, solidário e mais humano, com relações mais fraternais, igualitárias e libertárias.  O fato de ser possível à cooperação e a solidariedade, não levam à conclusão de que o ser humano seja um animal cooperativo e, ou seja, um ser social, sobretudo, se por “social” entender-se a capacidade de operar em conjunto (cooperar) para obter determinado objetivo de cunho mais social-comunitário. É mais fácil entender o determinismo biovegetal da “cooperação” no seio das populações de animais que vivem  em simbiose que a sociabilidade de um animal como o ser humano, provido de mecanismo de adaptação tão flexível e criativo como inteligência. Pode-se entender a sociabilidade como resultado de um ato reflexivo ou como uma feliz descoberta ao longo das vivências da evolução orgânica da humanidade. As guerras, as lutas fratricidas, a exploração do homem pelo homem, a escravidão, o colonialismo, o individualismo, os crimes, as castas, as classes, o racismo, a xenofobismo, a intolerância, os privilégios, tudo isto que tem constituído a história da civilização, é bem uma prova de que a socialização do ser humano é mais grave tarefa emoracional da humanidade. Porque supor, gratuitamente, que o ser humano “tende” para a socialização quando é evidente que só coopera e é solidário forçado pelas circunstâncias ou a partir de um ideal superior livremente escolhido e aceito? Não fosse a necessidade sexual de acoplamento, carência individual que só pode ser superada a dois, talvez o ser humano tivesse enveredado para o mais feroz isolamento social, povoando a terra de anacoretas. Mesmo acasalado, sua tendência é construir um clã isolado, hostil à cooperação com outros clãs, com seu território murado e com serviços e patrimônios privados. Apesar da evidência da funcionalidade do equipamento coletivo, os maiores obstáculos são criados para constituí-lo, ideal que, talvez, só tenha sido conseguido ate hoje pelos monges nos mosteiros de todas as religiões. Observar a vida coletiva numa cidade é a melhor forma de constatar a repugnância do ser humano à socialização: qualquer “contato”, por inadvertência, é tomado como ato de agressão, exigindo “desculpas” convincentes.Pessoas viajam horas seguidas num transporte coletivo ou aguardam vem numa sala de espera com ar agressivo que desestimula qualquer comunicação. A “angústia da comunicação” não é uma ocorrência generalizada, mas requinte de uma elite inteligente e “snob” que anteviu os “prazeres” da sociabilidade ou deduziu a proficiência da “cooperação”. Mas a socialização não ocorreria mesmo como atitude forçada ou invenção – se no ser humano não existisse uma infra-estrutura que permitisse este comportamento (equilibração) de nível superior. É provável que a sociabilidade deste animal individualista tenha provindo antes da raridade dos recursos de sobrevivência e da fragilidade anatômica de seus instrumentos de ataque e de defesa que de um “instinto gregário” misterioso e indefinível. A dificuldade que se submete vida sócio-comunitária é bem a prova de que não “nasceu” para a cooperação, embora por suas infinitas possibilidades de agir através de um sistema cooperativo,assim como as pedras de um xadrez, apesar de seu “individualismo”, produzem números incontáveis de jogadas conjuntas. A cooperação é, pois, não o ato irracional produzido por “instintos”, mas uma atividade superior do espírito. Pode-se dizer, pois, com muita probabilidade de acerto, que a cooperação foi a grande invenção do chamado “macaco nu”, invenção que funciona anda hoje como geratriz da cultura e da civilização. Talvez esteja nos 14 milhões de neurônios de seu cérebro privilegiado o segredo da sociabilidade e da cooperação: - um animal capaz de produzir infinitas combinações neurônicas está apto a encontrar a conduta necessária para produzir um trabalho cooperativo. A melhor parte do ser humano, isto é, as características propriamente “humanas”, não são senão interiorizações de fenômenos surgidos da cooperação lúdica (jogos e atividade sexual) ou forçados (trabalho e defesa comum).

A cooperação cria condições cada vez mais apropriadas aos processos de cooperação. Cooperar, pois, é uma árdua aprendizagem para a consecução da qual, nem sempre, a humanidade tem criado condições necessárias. As emoções individuais ( ex.: as cargas elétricas das nuvens ), ao entrarem em contato, tendem a provocar turbulências e explosões.Para aproveita-las,produtivamente,é preciso submete-las à “formalização” dos equilíbrios inteligentes. Uma bola jogada a um bando de crianças é mais eficiente para criar condições de cooperação e de amor que um longo sermão nos cultos dominicais. É na construção do equipamento coletivo que o ser humano aprende a amar e a cooperar. É mais convincente propor a união para superar uma carência e a defesa em comum ( em estado de ameaça coletiva a cooperação surge espontaneamente ) que levar à cooperação indivíduos, famílias, grupos e organizações cevadamente nutridos.Qualquer agrupamento que viva em estado anômico ( mera contigüidade, como por exemplo a classe obreira dentro das linhas de produção ) ou dominado por indivíduos mais capazes ou por estruturas arcaicas, só com longo esforço de conscientização conseguirá chegar à autonomia,à cooperação à plena comunicação.

PRINCIPAIS FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS DA COOPERAÇÃO
        
I. TODO SER HUMANO TEM UMA EXPERIÊNCIA QUE MERECE SER
TRANSMITIDA AOS OUTROS SERES HUMANOS

RECIPROCIDADE – cada ser humano – através de todas a suas valências – acumula uma experiência de caráter extremamente pessoal, que, por vezes, não tem oportunidade de transmitir aos outros seres humanos, por falta de processo de comunicação que o coloque em situação de sujeito e no nível de reciprocidade;

EXPERIENCIAÇÃO – se somassem as experiências de todos os indivíduos que, por necessidades da DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO E DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL, vivem juntos, o patrimônio cultural da comunidade ficaria surpreendentemente enriquecido e todos se beneficiariam com o esforço intelectual de cada membro da família, do grupo e da comunidade;
COOPERATIVA DE SABERES – Já se tomou evidente e aceito que as pequenas economias individuais e familiares (através de associações comunitárias, cooperativas populares, sociedades de mutualidades, empresas sociais, empresas financeiras, etc.) para possibilitar grandes investimentos; contudo só agora se começa a perceber que o mesmo pode ser feito com a experiência dos vários membros de um grupo, de uma família, de uma organização e de uma empresa;

DESPERDÍCIOS DAS VIVÊNCIAS – Se não se cria um processo sistemático de transmissão das experiências vivenciadas para as pessoas que não tem função de magistério ou chefia, não só imenso desperdício de verificar, como se privam as pessoas de participarem da vida sócio-comunitária através de sua experiência cultural;

ESTEREOTIPIAS – O mundo moderno – através da DIVISÃO DO TRABALHO – classificou os seres humanos com etiquetas (varredor, datilografo, balconista, médico, professor, etc.) e esqueceu-se que em cada um existe uma experiência sócio-cultural que se sobrepõe a estas estereotipias burocráticas (o datilografo da repartição pública pode ser um artista, um jogador de xadrez, um leitor de Graciliano Ramos...);

TODO SER HUMANO É UM SER CULTO – Num certo sentido da vivência experiencial, todo homem e toda mulher, tem cultura, vive e transpira cultura. Portanto, podemos afirmar que todos e todas somos CULTOS / CULTAS.Porque enxergarmos apenas a dimensão funcional da pessoa?! Por vezes, o mais humilde membro do grupo é possui a experiência que completa o quadro informacional sem o qual não é possível a solução dos problemas. No mais simples dos funcionários de uma empresa, pode está a mais brilhante das idéias.


II. A MAIS GRAVE DOMINAÇÃO É A QUE ANULA A PARTICIPAÇÃO
    DA PESSOA NO PROCESSO CULTURAL DA COMUNIDADE

PARTICIPAÇÃO INTELECTUAL – Pode-se imaginar o indivíduo privado da participação nos bens materiais sem que fique violada sua integridade. Todavia, é impossível permanecer verdadeiro ser humano sem participação na construção do capital que manifeste e expresse suas identidades e raízes: - a cultura, entendida aqui como produção dos conhecimentos pessoais, familiares e sociais;
IMPOSSIBILIDADE DE PARTICPAÇÃO – É constrangedor verificar como milhões de seres humanos jamais tiveram, tem e possivelmente não terão a oportunidade de transmitir suas opiniões, seus pensamentos, suas posições e suas visões, influindo nas decisões e nos destinos da vida sócio-econômica-política-cultural-ambiental e religiosa, construindo e renovando o agrupamento social a que pertence;

PERSONALIDADE – Pelo menos, em algum momento, a pessoa que pertence a algum agrupamento deveria ser ouvida como PESSOA HUMANA e não como “instrumento de produção” ou mero “executor de ordens”. (uma trabalhadora do lar, por exemplo, jamais tem oportunidade de ser considerada como pessoa por seus patrões, que na maioria absoluta das vezes, enxergam-na como uma máquina repetidora de movimentos, sem considerar seus sentimentos, afetos e sua vida);

ELITE CULTURAL – Mesmo pessoas do movimento do associativismo comunitário e do cooperativismo da agricultura familiar e economia solidária, que lutam pela PARTICIPAÇÃO de todos e de todas nos bens materiais, comportam-se por vezes como DOMINADORAS com relação à aceitação de todos os seres humanos na comunhão cultural. É de se verem estas pessoas em trabalhos de grupos ou dirigindo organizações como verdadeiros senhores feudais da cultura, do saber e do conhecimento;

DOUTRINAÇÃO IDEOCULTURAL – A propaganda e a doutrinação pura e simples, sem respeito à liberdade intelectual, é a mais grave espoliação que se possa fazer ao ser humano, sobretudo se nos aproveitarmos de sua ingenuidade e imaturidade. É um processo perverso, cruel e que pó vezes, quase que não se pode perceber, sentir e lutar;

CONSCIENTIZAÇÃO – A prova da dominação neste campo revela-se patente no temor que certos setores (elites) têm que as pessoas “incultas” participem da cultura “superior” do grupo: - para esta elite, a divulgação da cultura (até mesmo a mera alfabetização) representa um perigoso processo de “subversão” da ordem estabelecida, sobre as desordens consentidas. Contudo, não se pode imaginar a consciência crítica, criativa, cuidadora e analítica sem um segundo de sócioenculturação.


III. A EXPERIÊNCIA CULTURAL É UM BEM SÓCIO-COMUNITÁRIO QUE FICA À DISPOSIÇÃO DE CADA UM EM VISTA DO BEM COMUM.

(A riqueza é um bem comumA experiência é uma riqueza).

PESSOA COMO MERO DEPOSITÁRIO DA CULTURA – A mesma doutrina referente aos bens materiais aplica-se ao patrimônio cultural do grupo – a cultura de cada um tem finalidade social; usá-la em seu próprio e exclusivo proveito é violação do pacto social;

PATRIMÔNIO COMUNITÁRIO DA CULTURA – Tudo que sabemos foi transmitido pela comunidade. Sem os agrupamentos sociais não falaríamos sequer.Milhares de pessoas pensavam os pensamentos que formam hoje a cultura de cada um / uma.O que são as bibliotecas, senão patrimônios dos povos antecessores que suas histórias, deixaram imensos legados à humanidade?!;

ESTIMULANDO O CRESCIMENTO – Sem o grupo em que nascemos, vivemos, não chegaríamos jamais a sermos inteligentes e amorosos.” A situação de grupos” é a própria condição de crescimento e de maturação para tornar-se um SER HUMANO. (Tomemos o exemplo do “menino lobo”, que atesta que sem a comunidade humana não nos tornamos pessoas humanas...);

REVEZAMENTO – Cada geração recebe da anterior um patrimônio sociocultural (técnica, ciência, arte, etc.) que passa mais enriquecido à geração seguinte. Cada homem que se enclausura trai a confiança da geração seguinte, fazendo parar em suas mãos egoístas o bastão da experiência humana;

DOUTORA COMUNIDADE – A pessoa que atingiu os mais altos escalões dentro da comunidade (técnicos, cientistas, doutores) possui uma dívida social imensa para como grupo que contribuiu para esta ascensão – “a quem mais dado, mais será cobrado”. Deveria ser, portanto, preocupação quase obsessiva destas pessoas compensarem a comunidade pelos bens culturais que recebeu. Deveríamos pensar as formas e os meios para fazer esta devolução.

A cultura da cooperação e da solidariedade, estar por ser construída cotidiariamente nas ações, atitudes, posições, posturas e formas como todos e todas nos relacionamos uns com os outros. O grande desafio é viver isso em todas manifestações da vida.Urge neste limiar do século XXI, que de fato, construamos essa cultura, pois cada vez mais a humanidade caminha para oisolamento, o egoísmo, o individualismo, o personalismo, o pessoalizo e o intimismo.Da política às religiões, tudo estar mercadolizado. Até a categoria DEUS virou “produto das prateleiras e das mangas dos sacerdotes do bisnshow”. Todos os momentos somos chamados a consumir.A sedução do mercado é grande e tudo gira em terno da cultura do instantâneo.O que vale é o aqui e agora. Você vale quanto vale seu celular ou seu cartão de crédito. Urge que vivenciamos UMA OUTRA CULTURA, UMA OUTRA POLÍTICA, UMA OUTRA ECONOMIA, UMA OUTRA PRÁTICA DE ASSOCIATIVISMO E COOPERATIVISMO, que seduza as pessoas para os valores perenes que a humanidade sempre perseguiu:
> solidariedade;
> fraternidade;
> igualdade;
> liberdade;
> humanidade;
> criatividade;
> comunitariedade;
> sociabilidade;
> ecossustentabilidade... Nascemos para vida sócio-comunitária. Não nascemos para o isolacionismo mercenário, capitalista e desfragmentador. Nascemos para cooperar uns com os outros / outras. Sem o outro / a outra, não vamos a lugar algum. Eu preciso de você para viver e viver como gente.

O FORMIGUEIRO, A COLMEIA E O GRUPO HUMANO

Muitos pensadores têm indagado, secretamente, por que os seres humanos, tão inteligentes amoráveis são incapazes de produzir uma sociedade organizada como a das formigas e a das abelhas. A resposta é simples: - formigas e abelhas já nascem “programadas”para agirem como agem e os seres humanos, não sendo “programados”, isto é, sendo livres, precisam organizar, racionalmente, suas relações mútuas... O organismo das abelhas e das formigas vem preparado (sensibilizados) para “responder” de determinada forma, de modo que são incapazes de agir de outra forma, como se fossem, apenas máquinas.A isso chamamos de solidariedade mecânica. Não tendo instintos estereotipados, o ser humano “sofre a fatalidade” de ter que se auto-organizar através de experimentação sucessiva de sistemas, o que permite que progrida, o que é muito mais notável. Por que esta admiração ingênua para com os automatismos biológicos e desprezo pelo esforço racional de organização humana?!Se tivéssemos este mecanismo inato seríamos, simplesmente, formigas ou abelhas: - não passaríamos de máquinas biológicas!

FECHANDO, abrindo janelas para nossa atuação...

Estabelecer um SISTEMA COOPERATIVO e um equipamento coletivo de consumo, defesa e progresso sócio é uma grave tarefa que o ser humano vem perseguindo desde sua existência. Para cooperar até de computadores precisamos, embora muitos não tenha consciência disso. O ser humano não é geneticamente um ser gregário ou social.A socialização é resultante de uma conquista progressiva de sua racionalidade, dependendo inclusive, dos níveis de matematização dos processos sociais, culturais, ambientais, econômicos-financeiros e religiosos existentes e seus diversos contextos sócio-históricos.Temos muito ainda por fazer.Portanto, o movimento cooperativista da agricultura familiar e economia solidária, tem pela frente uma missão de fomentar esta consciência da necessidade da cultura da cooperação e da solidariedade, começando inclusive por dentro dos SISTEMAS DE COOPERATIVAS DA AGRICULTURA FAMILIAR E ECONOMIA SOLIDÁRIA.

Referenciais Bibliográficos:
- ARAÚJO, Luis de – A Ética como pensar fundamental. Lisboa:Imprensa Nacional/Casa da Moeda,1992;
- ARAÚJO, Ulisses F., PUIG, Josep Maria - Educação e Valores. São Paulo: Summus, 2007;
- MACHADO, Nilson José – Educação: Projetos e Valores. São Paulo:Escrituras,2000;
- MACHADO, Nilson José – Conhecimentos e Valores. São Paulo: Moderna, 2004;
- HERMANNS, Klaus – Participação Cidadã: Novos Conceitos e Metodologias. Konrad Adenauer,Fortaleza,2004;
- KUSTER, Ângela – Democracia e Sustentabilidade no Ceará, Nordeste do Brasil. Konrad 
  Adenauer, Fortaleza, 2003;
- ABONG – ONGs no Brasil: Perfil de um mundo em mudança. Konrad Adenauer, Fortaleza, 2003;
- PINHO, Diva Benevides – O Cooperativismo no Brasil – Da Vertente Pioneira à Vertente Solidária. São
  Paulo: Saraiva, 2004;
- BITTENCOURT, Gilson Alceu – Cooperativas de Crédito Solidário. NEAD/MDA – Estudos 04,Brasília,2002;
- FRANÇA, Cássio Luiz de – Comércio Ético e Solidário. Fundação Friedrich Ebert, São Paulo, 2002;
- NEAD / MDA – Estudos 09. Gênero, Agricultura Familiar e Reforma Agrária no Mercosul, NEAD – DEBATE,Brasília, 2006.

Reis Oliveira
Ecoambientalista, Ecoeducador Popular
Assessoria Pedagogica e Consultor Social.

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